Cópia Carbono

October 15, 2013

O concreto não se dobra. O mar não seca. A trajetória do corpo do homem que pulou não pode ser interrompida. A gravidade nos pressiona contra o chão. Quando dobramos a rua na esquina de casa, encontramos a nossa casa; e se dentes finos de um cão raivoso enterram-se em nossa carne, sangra, vermelho. Olho o espelho e me reconheço, e se por descuido queimo o dedo na panela que acabou de sair do fogo, a dor da bolha em minha pele é a garantia de que posso seguir em frente, e bem mais tarde, em minha cama de sempre, fechar os olhos e dormir – o mundo é uma poltrona macia, e tudo está em seu lugar. 

 

Esperamos que máquinas sigam cuspindo cópias idênticas das embalagens dos produtos que consumimos, e torneiras assépticas derramem o leite vitaminado dentro dessas embalagens, e que possamos reconhecê-las, desejá-las, para com as mãos alcançá-las na prateleira do hipermercado. Tudo está em seu lugar.

 

Diferente das máquinas, que não podem fazer diferente do que foram programadas, nós, bichos, movemo-nos condenados à impossível repetição do gesto. No tempo, maré, só nos resta boiar como pequenas folhas secas. Movido por uma obstinação desmesurada, André Renaud quer pintar o mesmo quadro, como se pudesse ir contra sua própria humanidade, e brincasse de ser máquina. Tornando-se maquinal, constrói o par improvável do que parece ter sido feito submetido às duras leis que regem o acaso, e arranha, como se fosse um gato, o tecido embolorado dessa velha poltrona onde está sentado, sonolento e entediado, o nosso olhar, fazendo-nos descer goela abaixo um espinhoso inesperado gole gelado, vindo direto de uma bebida quente, que juramos ter sido posta fumegando dentro da xícara, e então, convida-nos a mudar de lugar.

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Mind the Gap

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ANDRÉ RENAUD

Rio de Janeiro - RJ - BRASIL

euandrerenaud@gmail.com