Cópia Carbono

O concreto não se dobra. O mar não seca. A trajetória do corpo do homem que pulou não pode ser interrompida. A gravidade nos pressiona contra o chão. Quando dobramos a rua na esquina de casa, encontramos a nossa casa; e se dentes finos de um cão raivoso enterram-se em nossa carne, sangra, vermelho. Olho o espelho e me reconheço, e se por descuido queimo o dedo na panela que acabou de sair do fogo, a dor da bolha em minha pele é a garantia de que posso seguir em frente, e bem mais tarde, em minha cama de sempre, fechar os olhos e dormir – o mundo é uma poltrona macia, e tudo está em seu lugar. 

Esperamos que máquinas sigam cuspindo cópias idênticas das embalagens dos produtos que consumimos, e torneiras assépticas derramem o leite vitaminado dentro dessas embalagens, e que possamos reconhecê-las, desejá-las, para com as mãos alcançá-las na prateleira do hipermercado. Tudo está em seu lugar.

Diferente das máquinas, que não podem fazer diferente do que foram programadas, nós, bichos, movemo-nos condenados à impossível repetição do gesto. No tempo, maré, só nos resta boiar como pequenas folhas secas.

Movido por uma obstinação desmesurada, André Renaud quer pintar o mesmo quadro, como se pudesse ir contra sua própria humanidade, e brincasse de ser máquina. Tornando-se maquinal, constrói o par improvável do que parece ter sido feito submetido às duras leis que regem o acaso, e arranha, como se fosse um gato, o tecido embolorado dessa velha poltrona onde está sentado, sonolento e entediado, o nosso olhar, fazendo-nos descer goela abaixo um espinhoso inesperado gole gelado, vindo direto de uma bebida quente, que juramos ter sido posta fumegando dentro da xícara, e então, convida-nos a mudar de lugar.

                                                                                                        Joana Cesar

Aproveitamento pop carioca

 

A cidade não vive um tempo linear. Ela é permeada de ciclos, e o grande circuito produção-consumo-descarte é um deles. Este ciclo se mantém camuflado no dia a dia, pelas tarefas e mediações capazes de nos distrair dessa produção material e seu despojamento. A embalagem do pão comprada hoje de manhã pode virar outro objeto ainda nessa tarde sem que você sequer saiba. 

 

As latas de cerveja que ficam pelas ruas na sexta-feira à noite são quase que sócio-recicláveis. Desaparecem da vista sem que se perceba. Entretanto, há uma parcela da população atenta a esse circuito: a classe renegada e silenciosa dos catadores de lixo. 

 

É com essa mesma ideia de aproveitamento do que já existe que André Renaud constrói suas sobre madeirite. Seu foco sobre o reaproveitamento respeita as formas resultantes do processo industrial e que por si mesmas não seriam consideradas arte ou temáticas artísticas. No diálogo com a história da arte, o interesse é a relação entre suportes materiais e as escolhas de composição, tal como na colagem cubista. Utilizar a superfície do próprio suporte como textura, porque é possível refazer o que já está pronto.

 

Por outro lado, desenhar latas amassadas do refrigerante mais famoso do mundo estabelece diálogo com a linguagem pop, de maneira tão subterrânea quanto a movimentação dos trabalhadores informais que as retiram das ruas. Ao invés de celebrar a sociedade do consumo, o artista trata dos seus resíduos. Lixos pra quase todos, fonte de renda para alguns, o material descartado é matéria-prima para André, que se identifica com aqueles que efetivamente movimentam e constroem a cidade. São exemplos disso tanto o desenho do “burro sem rabo”, quanto a utilização de materiais descartados e recolhidos para reciclagem, que acabam compondo esculturas. A preocupação é mais com a significância dos objetos descartados do que com o readymade. É a vontade de valorizar o que, despojado de sentido utilitário, pode ser apreciado nas suas qualidades estéticas.

 

Mais do que viver o lema de que nada se cria, tudo se transforma, André Renaud quer se inserir nesse circuito invisível. Da mesma forma, a ele interessam construções da arquitetura popular, as obras de intervenção estrutural, o trabalho braçal operário. Todo o processo de transformação permanente e silenciosa da cidade. E não seria isso também um processo de reciclagem?

 

Carla Hermann

 

 

Mind the Gap

 

“Mind the gap”, titulo da exposição de André Renaud, é uma frase comumente utilizada para alertar sobre um vazio, um espaço, um vão, que pode causar acidentes, quedas. Esta frase reeditada para o trabalho de pintura de Renaud nos coloca em outras possíveis remissões. A mesma frase é pichada, por André, sobre jornais que tratam da violência urbana, da guerra entre poderes dominantes na cidade, no morro e no asfalto.

 

Ao mesmo tempo, estamos diante de pinturas que se utilizam de elementos de sinalização urbana como mote. Assim, vemos os garis, agentes da limpeza urbana, como personagens. Mas, André Renaud trata, sobretudo, dos elementos de descarte, como se observasse as categóricas pinturas de natureza-morta. Decidir pelo descarte é, deste modo, condenar objetos e imagens ao fim. Congelar uma imagem em uma representação artística também o é.

Observando a pintura de gênero, André Renaud, de outro modo, simula o congelamento e a igualdade, o que poderíamos chamar de reprodutibilidade, com elementos reais. Engradados, caixas, pneus, pedaços de janelas velhas são duplicados e, com isso, almejam a invisibilidade.

 

Aqui, podemos refletir que a invisibilidade da qual trata André Renaud é tanto aquela que precisa ser alertada pelas placas da sinalização urbana, quanto a uma outra que a arte insiste em exibir ao nos colocar diante de obras que, em sua fisicalidade, nada se diferenciam do objeto cotidiano e banal. Portanto, “Mind the Gap” é um alerta que nos induz a pensar o intervalo como lugar em latência, um porvir, aquele no qual se pode, com certo assombro, encontrar uma arte descartada.

 

Marcelo Campos

Terceira Mostra

 

Erros

A tradição artística no ocidente se encontra pautada na ideia de imitação. O melhor artista, segundo Plínio, o velho, no século I, era aquele capaz de melhor enganar os olhos do espectador. Durante o Renascimento, diversas são as anedotas que mostram que as esculturas de Michelangelo são correspondentes à própria vida ou à substituição dos modelos antigos. Com o modernismo, essa questão é colocada em xeque. Se a produção de imagens se desprende da ideia de imitar, essa mesma liberdade permite se chegar a algo como a técnica da colagem. Já é possível recortar algo do mundo da banalidade e lança-lo à agora antiga bidimensionalidade do óleo sobre tela. A apropriação se torna palavra de ordem na produção artística.

 

O trabalho de André Renaud me parece também problematizar a ideia de mimese. Ao dispor sobre o chão dois montes de objetos organizados de modos aparentemente aleatórios, primeiramente poderíamos pensar sobre a relação entre original e cópia. O problema aqui, porém, é que por serem ambos construídos de modo idêntico, formal e cromaticamente, esses termos perdem o sentido. Qual imagem surge primeiro? Qual é o ovo e qual é a galinha?

Visto que no começo de sua institucionalização como artista Renaud realizava imagens de trabalhadores das grandes cidades, podemos dizer que agora ele se coloca no lugar de um dos garis que um dia pintou. Ao coletar embalagens e resquícios de objetos um dia consumidos e organizá-los, podemos aproximar “Natureza morta e sua reprodutibilidade” da sua própria formação como pintor. Se pintura e cor parecem coisas indissociáveis, como negar que estes modos de dispor cores tridimensionais bebem da linguagem pictórica?

 

Se um dia as histórias cristãs já foram esculpidas em baixo-relevo sobre fachadas de catedrais, aqui se pega aquilo que comumente é chamado de lixo e se eleva à condição de objeto artístico através de uma disposição tridimensional que trará outra espécie de narrativa; a única coisa morta neste trabalho é a própria palavra em seu título. Muito da condição humana pode ser visto aqui: habitamos essa falsa planaridade que é o mundo de modo desorganizado, bagunçado, cada qual com seu rótulo e tamanho diferente, com corpo, cultura e aparência diversas, despojados em um canto apelidado por lar.

Ao ver os dois agrupamentos de destroços lado a lado, imediatamente lembro do famoso jogo dos sete erros. O trabalho de André Renaud me faz pensar sobre esta última palavra. Em um mundo em que um guaraná industrializado, batizado por Jesus e vendido no Maranhão, é comprado por uma indústria estadunidense, até que ponto ainda se pode continuar pensando de modo polarizado, através de “erros” e “acertos”? Qual a fronteira, portanto, entre o luxo e o lixo, o artístico e o banal, o consumível e o apreciável, o popular e o erudito? Não saberia dizer, mas espero que as respostas de André Renaud a essa problematização sigam a se desdobrar aos olhos do público. 

 

Raphael Fonseca

ANDRÉ RENAUD

Rio de Janeiro - RJ - BRASIL

euandrerenaud@gmail.com